sábado, 31 de dezembro de 2011

Imediatamente a seguir à ausência da minha mãe e de toda uma rotina, que girava à sua volta, um não cessar da nossa atenção sobre ela e tudo o que a ela dizia respeito, impôs-se o vazio e o silêncio. Para amenizar o tempo “desocupado” fui buscar a sua caixa das agulhas de tricot e muito aquém do que ela sabia fazer resolvi ocupar-me com algo que me era mais familiar na perspectiva de observadora/utilizadora. Tenho presente na memoria todas as camisolas e casacos de cores e feitios engenhosos que a minha mãe me fez, para estrear nos dias especiais. Depois ficavam para vestir aos domingos, de vez em quando, levava para escola e quando estavam a deixar de servir vestia quando queria.
Tinha quatro novelos, três cores e uma “receita” tirada da net. Iniciei, tricotando em malha do avesso, uma terapia saltitando entre as três cores.
Da esquerda para a direita, vislumbram-se três fases diferentes: primeiro, manter a disciplina da rotina, segundo, adormecer na cadência dos gestos, terceiro a libertação do padronizado.
A conclusão do poncho coincidiu com o aniversário da amiga que esteve lá, antes de tudo, durante tudo, e depois de tudo, com palavras, amparo e paciência. Foi a ela que ofereci este relevo da alma.

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