domingo, 3 de julho de 2016



fotos da S.
Não há duas sem três (a um aqui, aqui e aqui e a dois)
Esta foi a minha terceira participação no Trail das Zagaias e a primeira prova deste ano. O termo “prova” nunca fez muito sentido para mim, especialmente tratando-se de trail. São sempre oportunidades de fazer trilhos em segurança, desfrutando de paisagens belíssimas e de estar em contacto com a natureza. Talvez porque agora me levem a fazê-lo num registo mais calmo com tempo para apreciar, deixei que se passem seis meses sem participar em qualquer prova de trail (estrada nem se fala, que não tenho qualquer motivação). Na sequência de nos termos divertido no ano passado, nesta mesma prova, resolvi desafiar a S. para participarmos novamente. Equipa que ganha não se mexe. Nos últimos seis meses corremos muito pouco comparativamente com a frequência de outros tempos e a 15 dias da prova fizemos o primeiro “treino” de dois em condições de piso parecidas. Quisemos ver como nos aguentaríamos a fazer 22km a partir de uma amostra de 10-12km. Fizemos um pacto de não ter expectativas (a não ser terminar a prova em 3 horas), de fazer a coisa nas calmas, que a ideia é sempre divertir-nos, garantindo que não correríamos na hora de maior calor e que chegaríamos a tempo para o almoço. Partimos para Mação com a descontração do costume e a razoável para quem dormiu mal e teve de despertar às 6h20 de um domingo. Chegando lá e conhecendo os cantos à casa, não demoramos a ir levantar os nossos dorsais e a preparar-nos com os cintos de hidratação para a manhã que se previa ser das mais quentes dos últimos dias. Dali seguimos no autocarro da organização para a Praia do Carvoeiro. Coincidência deste início de prova ser justamente onde o ano passado a terminámos. Fomos conhecer a praia antes de regressarmos a casa depois da prova. O autocarro de atletas circunscreveu as serras descendo (repito, descendo) da vila Mação, onde seria a chegada, até à praia. A minha repetição pressupõe uma conclusão do que nos esperava, não por estrada mas por trilho! Subir. Subir.
Começamos com o calor numa fasquia um pouco mais alta que o previsto e que foi aumentando até à nossa chegada . O calor deixa-me à beira do fanico e segui sempre a fazer gestão do meu esforço para ter a certeza que chegava sem ter sofrido muito, Mas para que é que eu me meto nisto?! Felizmente reconheci na resposta a esta pergunta a magia de não controlarmos a nossa vida e não sabermos o que vem a seguir. Reconhecesse isto com particular satisfação quando somos surpreendidos pelo “tão bom”. E o “tão bom” foi sempre que o calor aliviou pela passagem por trilhos de vegetação mais densa que nos fazia sombra. Foi sempre que apreciámos e usufruimos dos benefícios da aromaterapia pelas suaves essências de pinhal ou eucaliptal. Foi sempre que nos via rodeada de serras. Foi sempre que escutávamos o som da água a correr nas ribeiras. Foi “tão, tão bom” sempre que não perdemos a oportunidade de nos molharmos ou mergulharmos na água. E neste terceiro trail tirei a barriga de misérias de mergulhos nas ribeiras.
Na primeira a água mal nos tapava os artelhos mas isso não nos impediu de nos molharmos com a ajuda das mãos. Já a roupa havia secado quando mandavam as fitas que passássemos ao lado de uma ribeira de água de cor límpida formando como uma piscina. A S. sugeriu um mergulho e eu nem pensei duas vezes. Desviamo-nos do percurso e mergulhámos até ao pescoço. Antes de retomarmos o trilho, ainda em êxtase pela frescura que me tinha tomado, observei com o meu ar tolo os cinco simpáticos participantes que nos passaram à frente imperturbáveis pela piscina natural. Pensei, “mas só nós é que gostamos disto?, Ana, deixa-os passar e não os atrapalhes na pressa de pôr um pé à frente do outro até à meta!”. Daí a uns metros ainda recarregamos energia num abastecimento de água fresca, ou pelo menos mais fresca que o chá que levávamos à cintura. Tivemos ainda laranja, banana, batata frita e marmelada para recarregar energia. Voltamos a aquecer, a roupa secou parcialmente e aproveitando a passagem ao longo de uma ribeira, entre escorrega aqui e equilibra-te ali, por querer fomos novamente ao banho de água até ao pescoço. Seguimos por mais uns quilómetros e tal como antes, nem os calções, nem as sapatilhas estavam enxutas e nós a passar ao lado de um rio com um enorme espelho de água a sorrir-nos. Sendo nas proximidades de um abastecimento, informamo-nos onde seria mais seguro ir ao banho e aí fomos nós, entrar, mergulhar até ao pescoço e seguir adiante. Daí até à meta foi quase sempre a subir, quase sempre a andar e sempre com muito calor. As pernas fraquejaram, denunciaram a falta de treino, visto que às vezes até queria correr mas parecia que tinha músculos de madeira.
Três horas e vinte cinco minutos depois da partida chegámos à meta. Ou melhor à primeira meta, pois para mim há claramente uma segunda, que é o almoço incluído no evento. Um almoço para todos os atletas, numa barraquinha da feira da Mostra de Mação. Para isso fomos primeiro ao banho, de chuveiro, onde a pressa também não nos tocou. Um agradecimento às pessoas que tomando conta dos balneários, permaneceram à espera que saíssemos para fechar os mesmos. Depois foi a passo tranquilo que chegamos ao recinto da feira. Gosto muito deste momento. Sabe bem pelo ambiente, pelo espaço, pela comida e pela simpatia de quem nos serve garantido que não nos falta nada. Chegámos, já estavam todos no prato principal. Mas o “tão bom” continuou a fazer das suas. Encontrámos dois lugares lado a lado numa mesa e um responsável da organização garantiu que também ali experimentássemos tudo como se tivéssemos chegado a horas. Começamos pela tábua de finas fatias de enchidos e produção local. Arrisco-me a dizer que é o único dia do ano em que como isto com satisfação. Acompanhado de pão caseiro de trigo e ou de milho e uma imperial é com certeza o momento em que atravessei a segunda meta. Dali para frente provei a sopa, passei ao prato principal, sempre delicioso, com fartura de tudo e onde até gosto do serviço de loiça que confere ainda um ambiente mais castiço e caseiro à festa. Pelo terceiro ano seguido é também o primeiro dia de comer melancia fresca e boa à sobremesa. Um conjunto de mimos que acresce ainda mais a certeza que esta prova é uma experiencia a não perder.
Obrigada à S. mais uma vez pelo companheirismo e amizade e aquela dose de loucura qb que a faz alinhar comigo, esperar por mim e ainda fazer-me acreditar que para o ano “nós lá”!
É com a distribuição dos prémios que acaba a festa. Diz-se à boca pequena que ganhámos o de quem mais se divertiu. Diz a S. que disso não haja duvida. Eu só digo uma coisa…

“tão bom”…

fotos de AC


2 comentários:

Cláudia M disse...

Tão bom, mesmo! ;) Adorei todo o texto, toda a descrição. Mergulhar nas ribeiras, sentir o cheiros da natureza, deve ter sido espectacular. Há coisas melhores, sem dúvida, do que atingir uma meta. E depois há as outras metas, as que fazem sentido para nós, ao nosso ritmo, as que nos fazem felizes. :)

Ana Fernandes disse...

Nessa forma de estar tenho encontrado muitos motivos para ser mais feliz.
Beijinho e Obrigada pela atenção