segunda-feira, 25 de janeiro de 2016


Olhou para mim com aquele ar de-quem-a-estava-a-fazer e certificou-se de que eu não via. Eu, que não o acho suspeito, percebi que era suposto não olhar para o GPS. Se eu não olhar, não vejo “ao certo” para onde vamos. Ao chegarmos a maior surpresa foi para ele. Aquele local abandonado tem agora um improvisado estacionamento e onde outrora não se via ninguém, aparece agora uma romaria para ali apreciar o-estado-a-que-isto-chegou. Ele ria do contraste com ultima visita que havia feito, eu, olhava tudo com normalidade, sendo que era mais uma curiosa. A presença dos outros quebra o misticismo do abandono mas retribui com alguma segurança à exploração dos espaços. A 7ª Bataria do Regimento de Artilharia de Costa foi abandonada, ocupada, vandalizada e permanece abandonada, a menos que seja um soalheiro domingo de tarde. Do abandono resta aquilo que não apeteceu a outros destruir ou roubar.
A minha relação com os grafitis, é como quem anda de barco em dia de alguma ondulação. Balanço entre o que é considerado arte urbana e o que é considerado vandalismo e não sei para que lado tombo. Gosto mas não de qualquer maneira. Gosto de perceber que sabem desenhar, que têm uma mensagem, que há uma alma inquieta, mas que se for muito revoltada que saiba mostrar que domina com arte os seus demónios.
Ficou-me esta sensação de que me escaparam inúmeros detalhes. É que “olhos de ver” exigem tempo e esse faltou-nos. Do edifício principal trago a vista de um terraço, a vista de uma casa banho e trago interação com os grafitis.
foto do G.

Depois de sairmos dali, segui para onde o G. me indicava. O caminho faz uma ligeira curva à direita, ligeira o suficiente para nos adoçar com vista sobre o mar escondendo à direita três canhões e desta vez mais três carros de tunning. Não houve ralis nem motores a roncar, talvez apenas um batimento mais acelerado do meu coração com o enquadramento daquele espaço. Canhões adornados de grafitis não combinam com guerras de altas patentes. Também não combinam com a natureza da serra da Arrábida mas dão-lhe um colorido apelativo, apontando para uma paisagem pacificamente inspiradora. Imagino quantos soldados rasos vigilantes se entediaram com a linha do horizonte. Tantos eram os bolsos das suas fardas e será que nenhum guardou neles anotações apaixonadas sobre aquele tempo e espaço, ou um livro para ler no intervalo do “sim meu capitão, vou já tirar o pó às munições”. Divagações (minhas) à parte, descemos ao bunker onde eram guardadas (as munições) e onde permaneci pouco tempo, o suficiente para que a escuridão me começasse a minar de pensamentos estranhos e superáveis com a vista do piso acima. Entretanto o azul do céu diluiu-se com o azul do mar e nós já esbatidos na penumbra, fomos os últimos a abandonar aquele lugar.

à semelhança do veado no breu na serra da louçã, para nosso espanto, vimos um gineto, principalmente a sua vistosa cauda.


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