terça-feira, 28 de abril de 2015



Lembro-me de ter amigos que quando estavam em fase de crescimento físico queixavam-se sobretudo de dores nos joelhos. Apesar de não ter crescido muito, o que cresci foi depressa. Cheguei a ser a maior e dessas dores não tenho memória. Dessas não, mas desde então sinto outras. O tempo é uma espécie de analgésico que nem sempre actua à primeira. As mesmas dores vão doendo menos ou igual, as novas doem o que tiver de ser . E daquelas dores que ardem para curar aguardo impaciente se curam. Estas dores de crescimento que podem travar, também podem incentivar. E dos tempos que sinto aquela dor de quem está a mudar, tenho cada vez menos medo de a enfrentar.


quarta-feira, 22 de abril de 2015





No sábado, mais dia menos dia fizeram 2 anos que participei na primeira prova de corrida, a Scalabis Night Race I. Na sequência da respectiva inscrição integrei o grupo de corrida que a organizou e até hoje tem sido uma presença constante na minha vida. Quer pelos "treinos", quer pelos amigos que fiz faço, quer pelo convívio e quer pela participação em provas de estrada ou trail. Por quantas vezes "vou-ali-correr-e-já-venho" e descomplico a vida.

No sábado, mais dia menos dia, fez 1 ano que não corri e apenas dei o meu contributo na Scalabis Night Race II, ajudando a organização no que me foi solicitado ou no que me pareceu estar ao meu alcance. Ser útil é bom, não correr foi o sacrifício que fiz para proporcionar aos outros aquele incentivo que sabe tão bem. 

No sábado, voltei a ajudar na Scalabis Night Race III. Voltei a ser uma pequena peça na engrenagem da distribuição de dorsais. Voltou a ser bom ajudar, dar o meu contributo, conviver com os colegas de equipa. Mas desta não fiz o sacrifício, não fiquei sem correr. Queria fazer uma prova de 10km, queria participar novamente nesta prova, arranjei dois objectivos de tempo, um expectável, outro utópico e fiz a inscrição. 

Saí da linha de distribuição dos dorsais a horas de trocar de roupa e chegar à linha de partida, ou tão perto quanto possível. Pelo caminho questionei-me se não deveria voltar para trás e trocar para o papel de staff e dar a mão onde fosse preciso, mas não tardei a esquecer as boas intenções assim que me vi cercada de atletas e amigos equipados naquele frenesim da coluna de partida. Foi a bom ritmo que parti com aquela massa de gente louca que o que quer é começar logo ali a ultrapassar a toda a velocidade e uma pessoa deixa-se ir naquele destravamento. Deixa-se ir até aguentar e eu aguentei o primeiro quilometro. Na linha de partida encontrei a minha amiga da maratona, a VF, que de certa forma ainda se ofereceu para puxar por mim mas só deixei que o fizesse até esse primeiro quilometro, depois tive de ficar para trás para não ter de parar por exaustão. Senti-me bem mas não BEEEM. Houve calor, houve uma dorzita, houve uma grande sensação de cansaço e de que seguia em grande esforço. Não deixei de prestar atenção aquele staff que me reconheceu ao longo do caminho, (só aí me dei conta que corria com a t-shirt da prova e e não da equipa) e me incentivaram com os mais diversificados pregões desportivos a que eu agradecia com um aceno, que não havia folego para mais, ou então murmurava "está aqui uma coisa esperta" tal era o desgaste que estava a sentir. Houve vontade de parar, caminhar e ralhar comigo, do tipo "perdeste o juízo ou quê, desde quando é que tens objectivos que se sobrepõem ao bem estar... hein?" mas acho que nem tive força para me dar ouvidos e continuei até à meta. Ultrapassada por muitos, 603 pares de pernas de um total de 2035, para bater meu recorde pessoal (objectivo expectável) e realizar 10km em 50 minutos e 13 segundos (objectivo utópico dos 50 min).
Pensei que caía para o lado depois da meta mas não, continuei a caminhar, parei para conversar, com este, aquele e aquele outro, comi a minha bifana, bebi a minha imperial (só meia), comi o meu pampilho e fui até casa a correr tomar banho e trocar de camisola. Depois voltei a tempo de ver pela primeira vez a entrega dos prémios, festejar à organização, ver o fogo de artificio e comer mais um pampilho. Ver o recinto cheio e vê-lo esvaziar-se deu-me vontade de voltar a ajudar para não prestar muita atenção ao fim da festa e assim fiz, mais uma vez, no que esteve ao meu alcance até regressar novamente a casa para o descanso merecido. 

e no sábado não me adormeci sem antes pensar "para o ano há mais"

foto: com Carlos Lopes


quarta-feira, 15 de abril de 2015



... e se por aqui parece que agora que não se passa nada, eu digo, que por aqui se passa tanto...


sexta-feira, 3 de abril de 2015




pensava eu, que tinha deixado tudo a jeito na noite anterior só para ficar mais uns minutos deitada a descansar na manhã seguinte. Já na correria pós despertador dei por falta disto e daquilo, mas não de tudo e saí convencida que não me faltava nada. Fui ao encontro de uma amiga das corridas, a SV, para sermos conduzidas até ao trail que aguardava por nós há um ano. Com aquela excitação dos miúdos, sorriam-nos os olhos à chegada só de imaginar o que nos esperava. As expectativas estavam altas e na partida foram generosos e deixaram-nos descer um bom bocado. É um pouco como na vida, às vezes há que dar um passo atrás para seguir os nossos propósitos e na Serra dos Candeeiros, como em tantas outras, se queremos ser surpreendidos pela beleza do topo, o sofrimento de subir por aí a cima redobra a satisfação. Grande parte do percurso obrigava a olhar para o chão, para ver onde colocava os pés, mas sempre que levantava os olhos era surpreendida pela vista circundante. O enquadramento do single track, de vegetação densa ponteada de amarelo e roxo e cinza da rocha era o postal que guardava para os dias de paredes brancas e papeis. A ecopista que circunscrevia a serra a meia altitude, onde outrora passou o pouca-terra-pouca-terra levou-nos também a passar debaixo dos mini-tuneis escavados na rocha. Imaginei à velocidade a que seguiam os comboios de antigamente a nostalgia de quem picava o bilhete ao apreciar tal percurso serrano. E o que era de tudo isto sem esse sentido do olfato, inspirar o aroma do alecrim, do pinhal, dos eucaliptos e de tantos outros que fazem do contacto com a natureza o retrato que gravamos na memória. Começamos as duas e seguimos juntas, não nos inibindo de parar para foto, a ideia era esforçarmo-nos até ao ponto que assegurasse a diversão. Entre correr, caminhar e saltitar, lá pela serra ficam também guardadas as conversas de raparigas que fomos tendo durante todo o percurso, com excepção das subidas feitas a correr, que o folego não dá para tanto. A generosidade da partida caiu por terra com a subidinha-para-lá-de-inclinada que nos esperava para atravessar a meta. Ela desafiou: "não vamos caminhar que parece mal" e eu dei a tática: "corremos mas damos passinhos pequenos para nos aguentarmos"... e depois de uma aproximação lenta atravessamos a meta e lançamo-nos à mesa do abastecimento final, que à semelhança dos que encontramos pela prova estava bem servida de coisas boas para repor as energias e matar o desgaste de 3h25 às voltas na serra para fazer 21km. 
Em sexta-feira Santa dissemos que não às bifanas e descemos para o banho, foi aqui que descobri o que mais estava em falta no meu saco, além da falta de água quente.
Os planos para um almoço entre amigos não tardaram a ganhar rumo e a seguir para o sitio da Nazaré. Tal como na serra o tempo estava optimo e depois do peixinho (ou das primeiras sardinhas do ano) caminhamos para desempenar as pernas e apreciar a vista lá de cima. Descemos à beira-mar e não sei se já disse que o tempo estava optimo, mas por ali estava ainda melhor, mesmo a puxar para o fato de banho e respectivo mergulho, a que alguns desconhecidos, se atreveram, oh almas felizes... Nós optamos por, imagine-se, por caminhar mais um pouco ao longo da calçada, que eu e a SV ainda estavamos com energia para mais umas passadas. Entre o clássico gelado no cone e as nazarenas vestidas a rigor para comemorar quem sabe a presença de tantas pessoas, convivemos também mais um pouco entre nós.
E se de manhã os nossos passos se queriam num bom ritmo, à tarde o ritmo foi daquela lentidão capaz de levar o tempo connosco, quem sabe enganá-lo com o que tínhamos para lhe mostrar e ele cedeu-nos o que teve. Tivemos assim tempo de seguir junto à costa passando e parando para mais vistas deslumbrantes sobre os areais e o mar. Pela Praia dos Salgados, por São Martinho do Porto e parar na Foz do Arelho para mais um copo com vista para o pôr-do-sol. Esquecemo-nos de brindar a esta verdadeira sexta-feira Santa que nos levou de regresso a casa com o coração cheio e a alma leve de um dia tão bem passado e em tão boa companhia. Não saí da Foz sem ver aqueles segundos mágicos em que a bola de fogo laranja passa para lá do horizonte. E se de manhã saí de casa com a sensação de que não me faltava nada, apercebi-me ao final do dia da quantidade de coisas que ainda couberam em mim... na minha bagagem. Regressei, como quis, nesta vida que quero conhecer e dar-me a oportunidade de viver...


quinta-feira, 2 de abril de 2015



"Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar."
- Agostinho da Silva