sábado, 28 de abril de 2007



A liberdade de escrever um “eu” que é qualquer um e um “tu” que é qualquer outro.

sábado, 21 de abril de 2007


01/01, 00:04
Encontrámos o Henriques à saída do metro. Encontrei um homem que me pediu um lenço de papel. Chorava. Magro, frágil, tez morena e envelhecida. O B não hesitou em parar, o que me deixou tranquila por saber que não o iríamos deixar para trás. “Porque choras?” perguntei e “Porque choras hoje?” pensei. Hoje todos sorriem, muitos cumprimentam-se na certeza de que nunca se viram e na incerteza de que se reencontraram. Entre tristes e indiferentes a grande maioria sorri. Eu e o B combinamos juntar-nos à maioria mas estávamos atrasados, como sempre estamos na maioria das vezes para estas ocasiões. Dei-lhe um lenço, que passou afavelmente no rosto. Olhou-nos percorrendo-nos de baixo para cima. Elevou o olhar como quem se ergue dos escombros mas voltou a descair. Para o acompanharmos sentamo-nos com ele. Naquele silêncio cada gesto entre mim e o B sussurrava “Obrigada por ficares!”.
“Tenho uma vida… porquê?” questionava-se o Henriques, “Porquê eu? Olhem…”. Da carteira retirou os seus documentos pessoais. Recordo um cartão de antigo militar do qual sobressaía uma fotografia a preto e branco.
“O que te aconteceu?” perguntei à fotografia, mas as fotografias não falam, gravam um instante passado e prometem futuro. E o que aquela me prometia revelava-se mentira diante dos meus olhos. Queria-nos comprovar a sua identidade. Qual a diferença entre o choro de um homem desconhecido e um homem com nome?
Para o Henriques havia uma diferença que justificava a verdade. E continuou a comprová-la, enquanto eu lhe recolhia os cartões, como se fossem cartas de um castelo em ruínas. Desta vez comprovava-a pela sua fé, retirava imagens de santos que gostava de trazer consigo. “Estão a ver? Porquê eu?”. Perante tão honesta convicção, não tivemos coragem de lhe dizer que para nós não precisava de acreditar em Deus. Para nós, o Henriques, era uma incógnita da infinita equação da nossa fé. Para ele, nós, éramos uma solução da sua crença. Aceitámos ser indícios de esperança. Contou-nos porque queria que aquele primeiro fosse o último dia. Não mais recordar para si as histórias de uma vida sem futuro. É dia de reavaliar, dia da extrema alegria cavar a extrema tristeza. Dei-lhe outro lenço e olhei para o fundo da gare, precisava de suster as lágrimas de impotência que ameaçavam turvar a minha visão. O B e eu cooperávamos na competição por aguentar aquela vida. Num acordo mútuo assumimo-nos adversários pelo Henriques e não cúmplices da sua ausência. Incansáveis contra-argumentamos e sustivemos a respiração a cada contra-reacção. Ambos sabendo que a nossa certeza era frágil, bem mais do que o próprio Henriques, pois ele, era o único capaz de a quebrar.
“...e há mais…” acrescentou... desconfiei que nos faltariam argumentos sólidos…
“Sou seropositivo”
Seguiram-se segundos de um silêncio, hoje eternizado em mim por respeito à sua dor e por respeito a quantos têm aquele olhar.
“... por nós Henriques, não faças isso”
Éramos a ultima carta do baralho, argumentos de uma pele que nos cobria o vazio da alma. Dêmos tudo o que tínhamos.
O que fui eu e o B? A mão que lhe deu um lenço, a mão que pegou na sua e a largou perguntando-lhe “Ficas bem?”
Acreditámos que sim e deixámo-lo...
A uma hora que poucos sorriam, o B também chorou e eu… ainda estou a olhar para o fundo da gare...
Sinto que estávamos atrasados para um destino que não era o nosso.
Será que chegamos a tempo?

Prometi-me um destino a todos os apeadeiros, chegar e partir, sempre naquela sonância que se propaga no ar, um pouca-terra pouca-terra que me leva a viajar.


Gosto de entrar no comboio, e esperar que o som das rodas a passar sobre as juntas de dilatação dos carris marquem o compasso dessa entrada noutra dimensão. Não sei de onde surgiu este prazer de viajar de comboio e de o escutar.
No verão, durante aquele silêncio que só a noite permite, é com um sorriso que oiço entrar pela janela, o som dos vagões a passarem lá longe. Viajo com esse som para um dos bancos da carruagem e antes de me recostar, olho uma última vez em redor para ver quem me acompanha nessa viagem. Observo-os, imaginando em que estarão a pensar e consumo os seus gestos como palavras que procuro descodificar. Recordar, o rapaz que sentado à minha frente, me surpreendeu do seu olhar ausente, quando num gesto antecipado abriu o pequeno caixote do lixo, no qual, eu me preparava para deitar um papel. As três irmãs holandesas, que estenderam mapas como mantas onde lhes tracei o destino. A senhora que se preparava para me converter a outra religião, e desviando-lhe a conversa foram duas horas sem invocar o nome de Deus… em vão. O menino que a meu lado adormeceu e se encostou sobre o meu ombro. O homem para quem virei, disfarçadamente, o meu livro evitando que ficasse com um torcicolo. De novo agradecer ao jovem de pernas compridas por este ter cedido mais espaço para que pudesse estender as minhas. Rir do velhote que de headphones cantarolava desafinadamente qualquer melodia. Retribuir caretas à menina que ao colo da mãe reclamava a minha atenção. E finalmente, parar junto do vidro da porta, e de pé, correr o olhar pela paisagem para não perder nenhuma gravura da película destas viagens.

Recuar aos momentos em que caminhei junto dos carris. Dias de Inverno que me apresentaram o quanto era divertido contar e saltar chulipas. Tapar, com a força da inocência, os ouvidos ao som ensurdecedor.
Uma vez o pai perguntou:“Dá medo, não dá? Quando o próximo passar havemos de gritar.”
E gritamos os dois. Gritei de medo e de dor pela força com que me apertou mão, para resistir ao efeito que me sugava, mas senti esse medo de um barulho desmedido por numa vibração que nos percorre todo o corpo.

Foi de viajar de comboio, de descodificar gestos oferecidos e outros reconhecidos, que me surgiu este prazer que escuto no pulsar de vidas que seguem na mesma linha.


Prometi-me um destino a todos os apeadeiros, chegar e partir, sempre naquela sonância que se propaga no ar, esse pouca-terra pouca-terra que me leva a viajar...

sexta-feira, 20 de abril de 2007

"I will die for the truth, in my secret life"

By Leonard Cohen




Vestígios enraizados na tranquilidade. A mesma do sem rosto, no vazio dos braços. Hoje, não vim para sentar-me à sombra, hoje, descobri onde me vives imortal. Imortalizei neste abraço a raiz do meu desejo.
Quando foi que partiste? Nunca.
Quando partirás? Espero que nunca.
Espero isso e muito mais enquanto corro atrás de tudo para encontrar-te. Sem nunca deixar-te sigo esta sede que me estende e me espalha neste universo que é procurar-te.
Aconteça o que acontecer, jamais permitirei que te arranquem de mim, regravando sempre na lembrança a imagem deste meu sentimento.
24/09/2006

quinta-feira, 19 de abril de 2007


Uma imensidão de azul.
Do céu ao mar toca-me o que vejo e vejo-os tocarem-se apenas num traço de horizonte. Prende-me o olhar, essa linha que limita a mais abrangente sensação. Prende-me mais do que segurando somente a minha mão. Prende-me o olhar que circunscreve, ilimitadamente, as linhas da vida traçadas por uma razão. Olho em meu redor e rodeada de um abraço, toco, fugaz, o horizonte do coração.
SERÁ UM SALTO ALTO?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Duas luas (Mísia, João Monge, José Magala) aqui

Eu vivo com duas luas
Delas me fiz companhia
Andam cruzadas as duas
E nenhuma me alumia
Atrás da minha janela
Nos lençóis onde me deito
Há uma lua que vela
Escondida no meu peito
A outra dizem que é tua
Nasceu no teu coração
É por isso que esta lua
Só brilha na tua mão
Até quando te insinuas
Quando me chamas baixinho
Eu vivo com duas luas
Cruzadas no meu caminho

terça-feira, 17 de abril de 2007

POSSO ESTICAR ESTA CORDA?
Vida – Hoje, a lição vai ser sobre um tema livre. Escolhe tu sobre o que queres aprender.

Eu – … (silêncio)…

Vida – Então, não queres escolher?

Eu – Não estava preparada…

Vida – Quem está? Queres falar sobre isso?

Eu – …não

Vida – Sobre quê, diz!

Eu – Vamos falar sobre “Abdicar

Vida – Sabes que isso é matéria surpresa recorrente no teu plano de estudos! Tens a certeza que queres falar sobre isso?

Eu – Sim, tenho. Mas se hoje posso escolher, falaremos, pode ser que para a próxima esteja mais bem preparada para a lição…

Vida – Por onde queres começar?

Eu – Quero saber o que sentes quando abdicam de ti?

Vida - ...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Dia - Danças?

Noite - Danço, mas não digas nada a ninguém. É um segredo que guardo no corpo. Escuto meus movimentos embalados no som que liberto, desenhando no espaço, um gesto. Gestos que derramam vida deste corpo, que à semelhança de tantos outros vivem rendidos a músculos paralisados na "vontade de". Corpo cansado que sucumbe aos encantos do sofá no final de tarde, ou a uma cama que assinala o ponto final de mais um dia. Conceder-nos-ei uma dança à luz da lua, reveladora dos traços da alma...

Dia - … e eu, uma à luz do sol, onde até as nossas sombras ficarão a descoberto… e ao som de que música?

Noite - A nossa… no bater dos corações teremos o ritmo compassado na vontade de nos deixarmos guiar...

Dia - Os nossos segredos guardados revelar-se-ão na liberdade de escutar o movimento que nos conduzirá num só gesto, nessa dança sincronizada do eterno retorno do dia... e da noite...

EU MOLDO?
TU MOLDAS?
ELE MOLDA?
NÓS MOLDAMOS?
VÓS MOLDAIS?
ELES MOLDAM?

quinta-feira, 5 de abril de 2007

a gente vai continuar (jorge palma) aqui

tira a mão do queixo, não penses mais nisso

o que lá vai já deu o que tinha a dar
quem ganhou, ganhou e usou-se disso
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
e enquanto alguns fazem figura
outros sucumbem à batota
chega aonde tu quiseres
mas goza bem a tua rota

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

todos nós pagamos por tudo o que usamos
o sistema é antigo e não poupa ninguém, não
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

terça-feira, 3 de abril de 2007

na encruzilhada...




Tenho um segredo que me dá e tira a razão. Que aprova o que digo e reprova o que faço. Que esconde tantos outros e encerra-me em voltas de carrossel. Seguro-me à esperança usando-a como se fosse um escudo da minha alma nesta espera, nesta ressaca do vício que é a vida, a minha. Quero sufocar-te lentamente segredo, impedir que gastes o ar que respiro e rasgar esse lençol com que queres tapar-me. Raiva? Não, quer dizer, às vezes…num tempo mínimo, o suficiente para a converter em tristeza. Não quero a raiva, ela tapa-me os olhos, faz-me acreditar que jamais brilharão estilhaçando a imagem que vejo de mim. Tristeza, porque serenamente posso moldar o pensamento, como se fosse um oleiro trabalhando mais uma peça nessa arte manual que faz dela a minha única obra… e na qual, mais uma vez, guardo o meu segredo.