segunda-feira, 10 de dezembro de 2007



de josé luís gordo por cristina branco in ulisses

"Entrego ao vento os meus ais

Onde o desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde
Na vontade de ser tua
Quero ser
Eu sou assim
Sete pedaços de vento
Sete vozes no jardim
No jardim que eu própria invento
Sete ares de nostalgia
Sete perfumes diversos
Nos cristais da fantasia
Amante de amores dispersos
Sete gritos por gritar
Sete silêncios viver
Sete luas por brilhar
E um céu para me acontecer
Entrego ao vento os meus ais
Onde desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata
Meus lábios estrelas da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua
Que o desejo não me guarde na vontade de ser tua"

terça-feira, 6 de novembro de 2007

domingo, 30 de setembro de 2007



"The sweetest little song" retocada

You go your way

I'll go your way too

By Leonard Cohen

sábado, 22 de setembro de 2007



à espera de cores...


Gosto das mulheres que envelhecem de nuno júdice


Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos caídos
pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

terça-feira, 21 de agosto de 2007



escrevo. escrevo traços de um sentimento que quero desenhar
aperto. aperto letras com a mesma força de vontade de o dar
envolvo. envolvo palavras no desejo de assim ficar
contorno. contorno por frases que dois podem gravar

palavras, são letras abraçadas, com as quais desenho o quanto quero ...

abraçar-te

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

encosta-te a mim (de jorge palma) aqui

Encosta-te a mim
Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

quarta-feira, 25 de julho de 2007



"- O mais importante, no que diz respeito à vida por estas bandas, é o facto de as pessoas se deixarem absorver pelas coisas.
- Absorver pelas coisas? Que quer isso dizer?
- Acontece o mesmo quando estás na floresta. Quando estás à chuva, tornas-te parte da chuva. Quando é manhã, tornas-te parte da manhã. Quando estás comigo, tornas-te parte de mim.
- E quando tu estás comigo, tornas-te parte integrante de mim?
- É a pura verdade.
- Qual é a sensação? Seres tu própria e parte de mim ao mesmo tempo?
Ela olha de frente para mim e toca no alfinete de cabelo.
- É um sentimento muito natural. Quando se está habituado, é muito simples. É como voar."


in "Kafka à beira-mar" de Haruki Murakami

sábado, 21 de julho de 2007




Olhei em volta e não vi ninguém. Aproximei-me. Voltei a olhar e nada. Estávamos sós e dei-lhe um abraço. Abracei-a… ou será que abracei-o? Se a abracei, foi ele que acolheu os meus braços. Eu, encostada a ele, na presença dela. Foi ela que eu vi primeiro, e a força que me transmite senti-a quando me aproximei dele.

Abracei, não sei se, a árvore ou o tronco?

domingo, 15 de julho de 2007



de josé luís peixoto

este livro. passa o dedo pela página sente o papel como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto. este livro tem palavras. esquece as palavras por momentos. o que temos para dizer nao pode ser dito. sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre a tua. damos as mãos quando seguras este livro. não me perguntes quem sou. não me perguntes nada. eu não sei responder a todas as perguntas do mundo. pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre o papel. devegar muito devagar. vamos beijar-nos

sexta-feira, 13 de julho de 2007




Recordo-me frequentemente do momento em que nos rimos juntos. Não te disse mas enquanto me ria senti vontade de chorar. Sentia-me feliz. Senti-te feliz. Hoje, quando me lembro continuo a ter vontade de chorar. Senti-me feliz e isso faz-me sorrir. Os segundos que se seguiram foram de silêncio. Um silêncio acompanhado de uma ausência de movimentos. Nada que denunciasse uma pergunta perdida em sucessivas sinapses. Não queria perguntas, queria apenas as respostas que me trazias no olhar, nos gestos, na voz, em tudo o que em ti falava mesmo que não pronunciasses uma palavra. Confiares-me o teu pensamento. Descansar em ti a minha vida nesse toque que nos ligava. Sentir a leveza com que nos sustentávamos. Gravei este momento, como sendo, de entre todos, o que mais quero que me pese.

quarta-feira, 4 de julho de 2007


uma bruxinha made by me to me

i feel pretty (musical "west side story") aqui
I feel pretty,
Oh, so pretty,
I feel pretty and witty and bright!
And I pity
Any girl who isn't me tonight.
I feel charming,
Oh, so charming
It's alarming how charming
I feel!
And so pretty
That I hardly can believe
I'm real.
See the pretty girl in that mirror there:
Who can that attractive girl be?
Such a pretty face,
Such a pretty dress,
Such a pretty smile,
Such a pretty me!
I feel stunning
And entrancing,
Feel like running and dancing for joy,
For I'm loved
By a pretty wonderful boy!

terça-feira, 3 de julho de 2007



quando bires o meu amor
dale um avraço
e um veijinho

um saco para o verão com motivos típicos dos lenços dos namorados e outros (2003)

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Por saber que nunca me esqueço, engulo a seco cada letra, e uma a uma desembocam contra as densas paredes que me revestem devolvendo num eco ininterrupto essa frase que escutei. Somente escutei, na certeza porém de a mim ser dirigida. De lá para cá “olha… não te esqueças de mim”, de cá não sai “olha… não te esqueças de mim… não te esqueças de mimnão te esqueças de mim…” Por saber que nunca me esqueço, não posso dizer que não percebo. Reconheço-o e a experiência alerta que reconhecer é a consciência que existe a possibilidade de abrir uma outra porta. Abrir ou não? Sabê-la e deixá-la fechada. Sim, às vezes, talvez mais do que “às vezes” possa transparecer. Abrir ou não? Sim. Não só saber que não me esqueço, mas demonstrar que me recordo é uma porta a abrir.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Vida: Olá

Eu: han?!…desculpa não te vi chegar!

Vida: Surpreendes-te como se eu não estivesse sempre presente?!

Eu: Esqueço-me de que não dormes!

Vida: A mim, também me agrada a madrugada…

Eu: …mas felizmente não tens sono

Vida: Que procuravas atrás de ti?

Eu: Certificar-me do que fica para trás.

Vida: Explica-me?

Eu: Nunca antes tinha tido uma percepção tão forte da presença das minhas costas. Nem nos momentos em que deixei, irremediavelmente, algo para trás. Entre consequências de opções e imposições, nunca antes o gesto de virar as costas foi tão sentido. É como se de repente elas ficassem muito maiores e sobre elas pesassem o meu próprio corpo. Como se caminhasse sobre elas, em vez pisar as pedras da calçada. Mesmo acreditando que o que fica para trás, ser-me-á devolvido por ti mais adiante…

Vida: Se te devolvo qual é o problema?

Eu: eu disse que acreditava, não disse que tinha a certeza que me devolverias…

Vida: Não chega acreditar?

Eu: Acreditar…é a minha vontade. A vontade de que esse peso que carrego, no revirar das costas, me seja devolvido aos braços…

Vida: E abraças?

Eu: Até agora, sim.

domingo, 17 de junho de 2007




Conto novas, conto velhas, conto-te um tudo e um nada de mim. Vou no tempo de um olhar que me promete que outros dias virão. E eles vêm, sempre novos, por vezes cheirando a velhos, a deja-vú enfastiado de sucessivas repetições. Os sorrisos são retalhos coloridos que por vezes colo, por vezes coso com a agulha e dedal. Sou uma manta de retalhos que enrolo a mim mesma. Conto novas, conto velhas, conto-te um tudo e um nada de mim. Estendo-me à vida levada na corrente de ar que me bafeja de feição. Mergulho leve nas águas frias e afundo-me pesada em lágrimas detidas. Conto novas, conto velhas, conto-te, de mim, o pouco que sei…

terça-feira, 5 de junho de 2007

Outros Sonhos (Chico Buarque e versos anônimos de uma antiga música chilena) aqui

Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias


Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Vida: Parece que estás com vontade de falar?

Eu: Queria falar muito, esgotar as palavras que trago retidas no pensamento. Um pensamento feito de palavras como o pântano de areias movediças, pelas quais escorregamos e nos detemos. Sozinhos sem volta. Esgotar-me até não sobrar uma única letra e disso não ter consciência. Deito-me hoje com esta vontade já batida, depois de redescobrir que um conjunto de circunstâncias mais reais na minha vida, me facilita o processo doloroso em que pode consistir acto de imaginar. Imaginar, como quem diz… vestir a pele de alguém…

sábado, 26 de maio de 2007

capitão romance (margarida pinto; ornatos violeta) aqui

não vou procurar quem espero
se o que quero é navegar
pelo tamanho das ondas
conto não voltar
parto rumo à primavera
que em meu fundo se escondeu
esqueço tudo do que sou capaz
hoje o mar sou eu

esperam-me ondas que persistem
nunca param de bater
esperam-me homens que desistem
antes de morrer
por querer mais que a vida
sou a sombra do que sou
e ao fim não toquei em nada
do que em mim tocou


eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei...

parto rumo à maravilha
rumo à dor que houver pra vir
se eu encontrar uma ilha
paro pra sentir
e dar sentido à viagem
pra sentir que eu sou capaz
se o meu peito diz coragem
volto a partir em paz

eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei
eu vi...
mas não agarrei

eu vi...
eu vi...
eu vi...
mas não agarrei…

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Primavera – A estrela diurna passa tangente ao verde que revela a paleta da mão natureza. Observo. Inspiro. O meu peito adsorve este espectro visível. Suplemento de que lentamente sacio todos os sentidos.

Verão – De olhos semi-cerrados procuro um tronco circunscrito pela sombra da densa folhagem em que me abrigo. Observo. Inspiro. Descubro pés de corpos que ainda na fase de pupa saem das suas crisálidas.

Outono – Caem a meus pés tapetes, estaladiços ao meu pisar. Observo. Inspiro. Rodopiam com o meu cabelo num movimento dessincronizado dessa massa de ar que, que tal como eu, não sabe para onde vai.

Inverno – Vapor aromatizado que num bailado helicoidal se liberta de dentro da minha caneca. Observo. Inspiro. A desordem provocada por um assopro decresce a entropia da poção mágica que aumentará a minha enquanto embatem gotas no vidro da minha janela.

segunda-feira, 7 de maio de 2007



"De repente senti uma profunda inveja das pessoas que viviam num mundo normal"

"E dou por mim a perguntar: onde é que está a lógica de tudo isto, se é que existe alguma coerência neste mundo?"

in "Crónica do Pássaro de Corda" de Hakuri Murakami

sábado, 5 de maio de 2007

Da Aurora Até o Luar
Arnaldo Antunes
Composição: Arnaldo Antunes / Dadi Carvalho


Quando você for dormir
Não se esqueça de lembrar
Tudo que aconteceu
Da aurora até o luar

Olho de janela
Nuvem de algodão
Pele de flanela
Sopa de vulcão
Borda de caneca
Bola de papel
Ferro na boneca
Lágrima de mel

Toda noite lembra o que aconteceu de dia
Sonha para o sono vir

Quando você for dormir
Quando você se deitar
Deixa o pensamento ir
Sem ter nunca que voltar

Música vermelha
Pássaro de flor
Chuva sobre a telha
Beijo de vapor
Riso no escuro
Lua de beber
Voz detrás do muro
Medo de morrer

Toda noite cria o que acontecerá de dia
Para o novo dia vir


“Hoje é um daqueles dias em que me apetecia voar”



“Hoje”… um agora que já devia ter sido e se agora ainda for não será tarde demais…


“é”… uma certeza de ser presente…


“um”… de poucos entre os muitos…


“daqueles”… já conhecidos…


“dias”… momentos ilimitados por ponteiros…


“que”… apresenta a razão da diferença…


“me”… o eu da razão de existir…


“apetecia”… um quer suspenso pela extinção da concretização…


“voar”… suavização para uma vontade de estar noutro sítio por um espírito que se quer elevar…


Abri a porta, estava escuro e pensei “Não consigo ver nada, está muito escuro”. Fui instintivamente com a mão ao interruptor mas não o encontrei. Às escuras, segui em frente, abri as janelas, deixei entrar o azul-escuro da noite e quando me virei já ele havia coberto as paredes revelando esquinas e contornos que me permitiam uma visão tridimensional e pensei “Quanto mais profundo mais escuro”. À medida que avancei o meu corpo escureceu e lá no fundo quando me virei vi no meu peito reflectido o mais escuro dos azuis e pensei “Am I feeling blue?”

sábado, 28 de abril de 2007



A liberdade de escrever um “eu” que é qualquer um e um “tu” que é qualquer outro.

sábado, 21 de abril de 2007


01/01, 00:04
Encontrámos o Henriques à saída do metro. Encontrei um homem que me pediu um lenço de papel. Chorava. Magro, frágil, tez morena e envelhecida. O B não hesitou em parar, o que me deixou tranquila por saber que não o iríamos deixar para trás. “Porque choras?” perguntei e “Porque choras hoje?” pensei. Hoje todos sorriem, muitos cumprimentam-se na certeza de que nunca se viram e na incerteza de que se reencontraram. Entre tristes e indiferentes a grande maioria sorri. Eu e o B combinamos juntar-nos à maioria mas estávamos atrasados, como sempre estamos na maioria das vezes para estas ocasiões. Dei-lhe um lenço, que passou afavelmente no rosto. Olhou-nos percorrendo-nos de baixo para cima. Elevou o olhar como quem se ergue dos escombros mas voltou a descair. Para o acompanharmos sentamo-nos com ele. Naquele silêncio cada gesto entre mim e o B sussurrava “Obrigada por ficares!”.
“Tenho uma vida… porquê?” questionava-se o Henriques, “Porquê eu? Olhem…”. Da carteira retirou os seus documentos pessoais. Recordo um cartão de antigo militar do qual sobressaía uma fotografia a preto e branco.
“O que te aconteceu?” perguntei à fotografia, mas as fotografias não falam, gravam um instante passado e prometem futuro. E o que aquela me prometia revelava-se mentira diante dos meus olhos. Queria-nos comprovar a sua identidade. Qual a diferença entre o choro de um homem desconhecido e um homem com nome?
Para o Henriques havia uma diferença que justificava a verdade. E continuou a comprová-la, enquanto eu lhe recolhia os cartões, como se fossem cartas de um castelo em ruínas. Desta vez comprovava-a pela sua fé, retirava imagens de santos que gostava de trazer consigo. “Estão a ver? Porquê eu?”. Perante tão honesta convicção, não tivemos coragem de lhe dizer que para nós não precisava de acreditar em Deus. Para nós, o Henriques, era uma incógnita da infinita equação da nossa fé. Para ele, nós, éramos uma solução da sua crença. Aceitámos ser indícios de esperança. Contou-nos porque queria que aquele primeiro fosse o último dia. Não mais recordar para si as histórias de uma vida sem futuro. É dia de reavaliar, dia da extrema alegria cavar a extrema tristeza. Dei-lhe outro lenço e olhei para o fundo da gare, precisava de suster as lágrimas de impotência que ameaçavam turvar a minha visão. O B e eu cooperávamos na competição por aguentar aquela vida. Num acordo mútuo assumimo-nos adversários pelo Henriques e não cúmplices da sua ausência. Incansáveis contra-argumentamos e sustivemos a respiração a cada contra-reacção. Ambos sabendo que a nossa certeza era frágil, bem mais do que o próprio Henriques, pois ele, era o único capaz de a quebrar.
“...e há mais…” acrescentou... desconfiei que nos faltariam argumentos sólidos…
“Sou seropositivo”
Seguiram-se segundos de um silêncio, hoje eternizado em mim por respeito à sua dor e por respeito a quantos têm aquele olhar.
“... por nós Henriques, não faças isso”
Éramos a ultima carta do baralho, argumentos de uma pele que nos cobria o vazio da alma. Dêmos tudo o que tínhamos.
O que fui eu e o B? A mão que lhe deu um lenço, a mão que pegou na sua e a largou perguntando-lhe “Ficas bem?”
Acreditámos que sim e deixámo-lo...
A uma hora que poucos sorriam, o B também chorou e eu… ainda estou a olhar para o fundo da gare...
Sinto que estávamos atrasados para um destino que não era o nosso.
Será que chegamos a tempo?

Prometi-me um destino a todos os apeadeiros, chegar e partir, sempre naquela sonância que se propaga no ar, um pouca-terra pouca-terra que me leva a viajar.


Gosto de entrar no comboio, e esperar que o som das rodas a passar sobre as juntas de dilatação dos carris marquem o compasso dessa entrada noutra dimensão. Não sei de onde surgiu este prazer de viajar de comboio e de o escutar.
No verão, durante aquele silêncio que só a noite permite, é com um sorriso que oiço entrar pela janela, o som dos vagões a passarem lá longe. Viajo com esse som para um dos bancos da carruagem e antes de me recostar, olho uma última vez em redor para ver quem me acompanha nessa viagem. Observo-os, imaginando em que estarão a pensar e consumo os seus gestos como palavras que procuro descodificar. Recordar, o rapaz que sentado à minha frente, me surpreendeu do seu olhar ausente, quando num gesto antecipado abriu o pequeno caixote do lixo, no qual, eu me preparava para deitar um papel. As três irmãs holandesas, que estenderam mapas como mantas onde lhes tracei o destino. A senhora que se preparava para me converter a outra religião, e desviando-lhe a conversa foram duas horas sem invocar o nome de Deus… em vão. O menino que a meu lado adormeceu e se encostou sobre o meu ombro. O homem para quem virei, disfarçadamente, o meu livro evitando que ficasse com um torcicolo. De novo agradecer ao jovem de pernas compridas por este ter cedido mais espaço para que pudesse estender as minhas. Rir do velhote que de headphones cantarolava desafinadamente qualquer melodia. Retribuir caretas à menina que ao colo da mãe reclamava a minha atenção. E finalmente, parar junto do vidro da porta, e de pé, correr o olhar pela paisagem para não perder nenhuma gravura da película destas viagens.

Recuar aos momentos em que caminhei junto dos carris. Dias de Inverno que me apresentaram o quanto era divertido contar e saltar chulipas. Tapar, com a força da inocência, os ouvidos ao som ensurdecedor.
Uma vez o pai perguntou:“Dá medo, não dá? Quando o próximo passar havemos de gritar.”
E gritamos os dois. Gritei de medo e de dor pela força com que me apertou mão, para resistir ao efeito que me sugava, mas senti esse medo de um barulho desmedido por numa vibração que nos percorre todo o corpo.

Foi de viajar de comboio, de descodificar gestos oferecidos e outros reconhecidos, que me surgiu este prazer que escuto no pulsar de vidas que seguem na mesma linha.


Prometi-me um destino a todos os apeadeiros, chegar e partir, sempre naquela sonância que se propaga no ar, esse pouca-terra pouca-terra que me leva a viajar...

sexta-feira, 20 de abril de 2007

"I will die for the truth, in my secret life"

By Leonard Cohen




Vestígios enraizados na tranquilidade. A mesma do sem rosto, no vazio dos braços. Hoje, não vim para sentar-me à sombra, hoje, descobri onde me vives imortal. Imortalizei neste abraço a raiz do meu desejo.
Quando foi que partiste? Nunca.
Quando partirás? Espero que nunca.
Espero isso e muito mais enquanto corro atrás de tudo para encontrar-te. Sem nunca deixar-te sigo esta sede que me estende e me espalha neste universo que é procurar-te.
Aconteça o que acontecer, jamais permitirei que te arranquem de mim, regravando sempre na lembrança a imagem deste meu sentimento.
24/09/2006

quinta-feira, 19 de abril de 2007


Uma imensidão de azul.
Do céu ao mar toca-me o que vejo e vejo-os tocarem-se apenas num traço de horizonte. Prende-me o olhar, essa linha que limita a mais abrangente sensação. Prende-me mais do que segurando somente a minha mão. Prende-me o olhar que circunscreve, ilimitadamente, as linhas da vida traçadas por uma razão. Olho em meu redor e rodeada de um abraço, toco, fugaz, o horizonte do coração.
SERÁ UM SALTO ALTO?

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Duas luas (Mísia, João Monge, José Magala) aqui

Eu vivo com duas luas
Delas me fiz companhia
Andam cruzadas as duas
E nenhuma me alumia
Atrás da minha janela
Nos lençóis onde me deito
Há uma lua que vela
Escondida no meu peito
A outra dizem que é tua
Nasceu no teu coração
É por isso que esta lua
Só brilha na tua mão
Até quando te insinuas
Quando me chamas baixinho
Eu vivo com duas luas
Cruzadas no meu caminho

terça-feira, 17 de abril de 2007

POSSO ESTICAR ESTA CORDA?
Vida – Hoje, a lição vai ser sobre um tema livre. Escolhe tu sobre o que queres aprender.

Eu – … (silêncio)…

Vida – Então, não queres escolher?

Eu – Não estava preparada…

Vida – Quem está? Queres falar sobre isso?

Eu – …não

Vida – Sobre quê, diz!

Eu – Vamos falar sobre “Abdicar

Vida – Sabes que isso é matéria surpresa recorrente no teu plano de estudos! Tens a certeza que queres falar sobre isso?

Eu – Sim, tenho. Mas se hoje posso escolher, falaremos, pode ser que para a próxima esteja mais bem preparada para a lição…

Vida – Por onde queres começar?

Eu – Quero saber o que sentes quando abdicam de ti?

Vida - ...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Dia - Danças?

Noite - Danço, mas não digas nada a ninguém. É um segredo que guardo no corpo. Escuto meus movimentos embalados no som que liberto, desenhando no espaço, um gesto. Gestos que derramam vida deste corpo, que à semelhança de tantos outros vivem rendidos a músculos paralisados na "vontade de". Corpo cansado que sucumbe aos encantos do sofá no final de tarde, ou a uma cama que assinala o ponto final de mais um dia. Conceder-nos-ei uma dança à luz da lua, reveladora dos traços da alma...

Dia - … e eu, uma à luz do sol, onde até as nossas sombras ficarão a descoberto… e ao som de que música?

Noite - A nossa… no bater dos corações teremos o ritmo compassado na vontade de nos deixarmos guiar...

Dia - Os nossos segredos guardados revelar-se-ão na liberdade de escutar o movimento que nos conduzirá num só gesto, nessa dança sincronizada do eterno retorno do dia... e da noite...

EU MOLDO?
TU MOLDAS?
ELE MOLDA?
NÓS MOLDAMOS?
VÓS MOLDAIS?
ELES MOLDAM?

quinta-feira, 5 de abril de 2007

a gente vai continuar (jorge palma) aqui

tira a mão do queixo, não penses mais nisso

o que lá vai já deu o que tinha a dar
quem ganhou, ganhou e usou-se disso
quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
e enquanto alguns fazem figura
outros sucumbem à batota
chega aonde tu quiseres
mas goza bem a tua rota

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

todos nós pagamos por tudo o que usamos
o sistema é antigo e não poupa ninguém, não
somos todos escravos do que precisamos
reduz as necessidades se queres passar bem
que a dependência é uma besta
que dá cabo do desejo
e a liberdade é uma maluca
que sabe quanto vale um beijo

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver estrada para andar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
enquanto houver ventos e mar

terça-feira, 3 de abril de 2007

na encruzilhada...




Tenho um segredo que me dá e tira a razão. Que aprova o que digo e reprova o que faço. Que esconde tantos outros e encerra-me em voltas de carrossel. Seguro-me à esperança usando-a como se fosse um escudo da minha alma nesta espera, nesta ressaca do vício que é a vida, a minha. Quero sufocar-te lentamente segredo, impedir que gastes o ar que respiro e rasgar esse lençol com que queres tapar-me. Raiva? Não, quer dizer, às vezes…num tempo mínimo, o suficiente para a converter em tristeza. Não quero a raiva, ela tapa-me os olhos, faz-me acreditar que jamais brilharão estilhaçando a imagem que vejo de mim. Tristeza, porque serenamente posso moldar o pensamento, como se fosse um oleiro trabalhando mais uma peça nessa arte manual que faz dela a minha única obra… e na qual, mais uma vez, guardo o meu segredo.

sábado, 10 de março de 2007



O vento, passou como dedos entre os fios do meu cabelo. Adormeci embalada pela vida que corria no rés-do-chão da minha rua. Solas que batem a caminho de um destino que nunca chega. Pés que obedecem a estímulos motores da mecânica do dia-a-dia. Por ali tudo passa, por vezes, descaídos para tombar noutro lugar. Vozes que se estendem ao virar da esquina, deixando para trás frases soltas. Palavras que o vento não leva porque me está afagar o cabelo. Sorrisos que me descontraem a expressão de serenidade. Sorrio também. Um sorriso solidário que me franze a testa na duvida do motivo. Que importa, viro a outra face e adormeço de novo.

sexta-feira, 9 de março de 2007




Um dia aproximei-me da terra. Vi o céu da sua prespectiva. Ajoelhei-me e enterrei os meus dedos no solo. Senti como pulsa seu coração enquanto se acompanham dia e noite, dia e noite... Cavei um pequeno buraco e imaginando tratar-se do seu ouvido, contei-lhe um segredo... tapei-o... e a partir daí... ficámos cúmplices.

quinta-feira, 8 de março de 2007




Procuro vida entre dedos acorrentados. No tacto vago, encontro almas entrelaçadas na liberdade que sentem de se prenderem num nó cego.Meus braços estendidos; não sei que esperam, se esperam, se chamam por esse volátil desejo que procuro agarrar. Aguardo a cada instante encontrá-lo vivo, forte e sem forçar permaneço presa até quando me libertar.

terça-feira, 6 de março de 2007



Cavei no seu ventre a minha primeira caverna.
Saí, trazendo dentro de mim esse lugar.
Um lugar que cedo ocupei.
Adopto sonhos de preenchê-lo,
crescendo mas não se vê,
a vontade de os amar.

domingo, 18 de fevereiro de 2007



Pinto num tom abaixo, o mesmo tom que sai do som da minha harmónica... notas de pensamentos que o tempo grava.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Que peso é este que eu carrego?


Mineiro
Começaste a falar para todos. Ao fim de um tempo, esse crivo do interesse, não havia ninguém entre nós e aproximei-me de ti. Quis, ver mais do que o teu rosto ou a tua expressão, ouvir mais do que a tua voz. Quis ser a primeira a interceptar as tuas palavras intactas. Descrevias esse mundo, que é teu, hoje transformado em atracção turística. Por entre a escuridão e o pó da pirite, transportaste-me pelos diversos pisos, chegamos aos 400 metros de profundidade com uma temperatura superior a 40ºC e onde a ventilação era uma coisa do futuro. Em poucos segundos estive lá 58 horas, mas quando vi no teu rosto, a expressão do homem que não quer chorar com vontade de fazê-lo, apercebi-me que nunca tinha saído da superfície da terra…
Só aí compreendi porque iniciaste afirmando: “Na escuridão, perdemos a noção da profundidade.”

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

o preto absorve todas as cores…
o branco reflecte todas as cores…
o que realmente importa (para mim), é que visíveis ou não, as cores são verdadeiras…
…as cores mostram aquilo que estamos capazes de ver...





















Sinceridade
Às vezes, a sinceridade chega onde e como não a espero.
Onde?... onde vivo a ver a vida.
Como?... frágil e efémera.
E se, quando ela chega pergunta: “Desculpe, posso sentar-me?”
Respondo: “Podes,… se for para ficares”
Senta-te então a meu lado. Vejamos juntas o mundo deste coração em que me sento. Em que me sinto. Em que me escondo e recolho nos momentos de fuga. Fujo para aqui quando o real se aproxima ou me toca.
És frágil... e juntas, fico mais frágil, mas sincera, e isso é tudo o que preciso para ser forte. Forte, como a mão, que nesse truque de magia a tua efemeridade converte em beleza.

sábado, 10 de fevereiro de 2007